Nós já falamos aqui sobre o escândalo envolvendo o Facebook e a Cambridge Analytica a respeito de uma falha na proteção dos dados de milhões de usuários da rede social, que foram usados indevidamente para adequar discursos eleitorais e influenciar no resultado das campanhas do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da saída do Reino Unido da União Europeia, que ficou conhecida como Brexit. A verdade é que a maioria das pessoas não tinha nem ideia da quantidade e qualidade de dados que ficavam a mercê do Facebook até esse momento, quando durante o julgamento do caso o fundador da rede social, Mark Zuckerberg, fez referência a uma ferramenta que permite que os usuários acessem todo o conteúdo coletado e retido pela empresa.

Quer saber que conteúdo é esse e finalmente descobrir os dados que as empresas têm sobre nós? Então fica de olho no post de hoje!

Quase um álbum de recordações

Com a implementação da GDPR, as empresas que coletam dados passaram a ser obrigadas a disponibilizar as informações e registros que coletaram sobre nós ao longo do tempo e de nossas interações com elas. No caso do Facebook, a ferramenta “Download Your Information” (em português, “Baixe suas Informações”) fica disponível nas configurações de conta do usuário, e permite que o mesmo tenha acesso a um vasto conteúdo produzido por ele próprio ao longo de sua permanência na rede social. Atendendo às demandas por mais transparência e ajudando a empresa a cumprir as novas regras de proteção de dados na União Europeia, o arquivo também oferece uma oportunidade de ver a si mesmo através dos olhos daqueles que consomem nossos dados, como parceiros, pesquisadores e anunciantes.

Apesar de reunir bastante conteúdo sobre nossas movimentações na plataforma, o arquivo não guarda absolutamente tudo o que fizemos por lá. Sem dúvida constam nossas informações básicas, como data de nascimento, número de telefone, escolas, locais de trabalho e tudo mais que adicionamos às nossas principais informações de perfil. Contudo, em setembro deste ano, a repórter Anna Wiener escreveu um artigo sobre como foi navegar pelos seus dados armazenados no Facebook e descobriu que, por exemplo, havia registros de endereços de IP de todas as vezes que ela tinha acessado a plataforma desde 2009, embora sua conta na rede social existisse desde 2005. Além disso, Wiener descobriu outros registros esperados, como transcrições de bate-papo, listagens de eventos, fotografias e vídeos, e outros mais polêmicos, como tópicos de publicidade para os quais ela poderia integrar o publico alvo.

Anna também descobriu nos seus arquivos vídeos que ela tinha gravado, mas que não haviam sido efetivamente postados ou enviados aos seus contatos. Ou seja, o mero fato deles terem passado pela sua rede social, mesmo que o compartilhamento não tenha sido efetuado, fez deles um registro em seus dados armazenados pelo Facebook. Posteriormente, a empresa anunciou que a inclusão de vídeos deletados foi o resultado de um bug, e afirmou que procederia com o descarte desses dados de seus servidores.

De forma geral, os arquivos funcionam quase como um álbum de recordações onde os registros foram guardados de forma mais ou menos ordenada e definitivamente superficial. Logo, fica claro que o conteúdo disponibilizado para nós, usuários, não é um registro integral dos dados coletados pela empresa, de forma que o próprio Facebook já admitiu isso. O software de análise de dados utilizado para a coleta e a assimilação de informações dos usuários de uma rede social tão grande e complexa deve ser bastante sofisticado. No entanto, o registro apresentado através do “Download Your Information” não contém o menor traço dessa sofisticação.

 

Dessa forma, podemos concluir que a amostra de dados coletados disponibilizado para a nossa consulta é apenas um resumo do que é armazenado de fato. Mesmo assim, a quantidade de informações exibida nesse resumo já é bastante impressionante e nos ajuda a ter uma ideia de que basta uma análise ligeiramente mais atenta do nosso comportamento online para extrair informações comercialmente valiosas. É um começo. Entretanto, se o objetivo da GDPR é a transparência absoluta, ainda temos um longo caminho pela frente.

BigData Corp

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