Nós já falamos por aqui do quanto o Big Data tem revolucionado a gestão das chamadas cidades inteligentes, através de soluções empregadas com base na análise de dados. No entanto, será que, além de usar os dados como uma ferramenta capaz de melhorar a funcionalidade de alguns aspectos urbanos, é possível utilizá-los de forma mais aprofundada, como a verdadeira base de decisões de um governo? Já está provado que sim.

Se você quer saber mais sobre como isso pode funcionar, fica de olho no post de hoje que nós contamos tudo!

Tulsa, Oklahoma

Além dos cases analisados no post sobre cidades inteligentes, vale a pena prestar atenção também no exemplo da cidade de Tulsa, localizada em Oklahoma, nos Estados Unidos. O prefeito G. T. Bynum conquistou admiradores que o elegeram em 2016 comprando seu discurso pró-dados, no qual ele garantia que, sob a sua gestão, a cidade seria administrada com foco em resultados gerados pela análise de dados, e não em interesses partidários. Bynum só não contava com um entrave: seu orçamento não permitia a implementação de uma equipe de dados em tempo integral para cumprir suas promessas de campanha.

Foi aí que o prefeito recém-eleito teve a ideia de convocar voluntários para a equipe, e enviou um e-mail a todos os departamentos da prefeitura. Esperando um retorno de mais ou menos 15 participantes, Bynum se surpreendeu ao reunir 60 pessoas na primeira reunião. Atualmente, a equipe batizada de Urban Data Pioneers conta com 120 postos de trabalho. Dos cerca de 50 membros ativos, aproximadamente dois terços são funcionários do governo, e o restante são membros da comunidade de Tulsa.

Esse grupo de funcionários está contabilizando coisas como os buracos da cidade, prédios abandonados, cronometrando semáforos, medindo a estabilidade e o crescimento da população para, em seguida, mapear suas descobertas. Depois de mais de um ano executando projetos que duram 10 semanas, eles estão começando a identificar as tendências da cidade e obtendo resultados. Por exemplo, ao analisar dados sobre a relação entre educação e renda, descobriram que os níveis mais altos de educação foram o fator mais importante que impulsionou uma renda per capita mais alta na cidade de Tulsa.

Encorajados pelos dados, a equipe descobriu que poucos alunos do ensino médio de Tulsa estavam preenchendo formulários federais de ajuda financeira em seu último ano do ensino médio, o que significava que estavam perdendo a oportunidade de se inscrever em um programa do governo que paga por quatro anos de faculdade. Com esses dados em mãos, Bynum estabeleceu como missão então atrair mais pessoas para a faculdade e, juntamente com a Câmara de Comércio de Tulsa, o prefeito liderou uma campanha para fazer com que mais pessoas se inscrevessem.

Desde então, Tulsa conseguiu aumentar as inscrições de estudantes do ensino médio para o programa de ajuda financeira federal na cidade em mais de 10%. Ao analisar o resultado de seus esforços, Bynum admitiu que não saber se a sensação de urgência sobre esse assunto teria sido tão grande se não tivesse tido acesso a esses dados comprovados.

Como escapar das armadilhas?

O case da cidade de Tulsa é inovador porque conta com voluntários que vêm de fora da estrutura formal de uma equipe de dados ou de funcionários em tempo integral. Contudo, essa pluralidade não isenta a equipe das mesmas preocupações de qualquer outro time de dados. Coletores e analistas de dados são cidadãos, pessoas comuns que trazem seus preconceitos inconscientes e conscientes para o quadro de colaboradores. E, embora a Bynum veja que uma política baseada em números pode ser considerada mais neutra do que politicamente motivada, os dados dificilmente são apartidários, uma vez que alguém tem que decidir quais informações são coletadas, quais hipóteses testar, e, posteriormente, como esses resultados serão empregados.

Para reduzir as chances de influências pessoais nas análises, as metas foram inicialmente determinadas pelo prefeito em conjunto com o chefe de estratégia de desempenho e inovação da cidade, que supervisiona o processo de dez semanas de cada grupo. As iterações posteriores permitem que as equipes apresentem projetos com base nos dados disponíveis e, além disso, a prefeitura programou anunciar uma chamada aberta para sugestões de projetos do público em geral.

De acordo com Bynum, seu principal interesse em um governo baseado em dados era do ponto de vista de melhorar a eficiência e o desempenho da administração pública. Além disso, segundo ele, ao lidar com dados, as pessoas são mais propensas a deixar de lado diferenças filosóficas e predisposições, e focar na realidade tangível na frente delas.

Desafios que persistem

Outro caso difícil de ser deixado à subjetividade é a mensuração da relação entre os índices flagelo e crimes violentos em diversos pontos da cidade. Usando dados coletados pelo Love Your Block, programa de revitalização de bairros financiado por doações, e pelo Departamento de Polícia de Tulsa, a Urban Data Pioneers está testando hipóteses como: vizinhanças mais pobres e com mais imóveis abandonados e depredados possuem maiores indicadores de crimes violentos?

Para chegar a essa resposta, a equipe de dados da prefeitura de Tulsa também usa como fonte de informação chamadas do número de emergência local e aplicativos de monitoramento e solicitação de reparos. E, como a pesquisa comprovou, quando os membros da comunidade são incumbidos de relatar áreas potencialmente inseguras através desses canais, as pessoas negras e os sem-teto são frequentemente policiados por simplesmente viverem suas vidas. Por essa razão, algoritmos baseados em dados destinados ao policiamento preditivo têm sido duramente criticados por perpetuar padrões de investigação racistas.

Para não cair nessa armadilha, no lugar de usar os dados para justificar o aumento do policiamento, a prefeitura de Tulsa está mais focada em utilizar os índices descobertos para prever e evitar o flagelo na cidade, de forma a reduzir a probabilidade de que uma propriedade fique tão deteriorada que a única opção seja demolição.

 

Podemos concluir que o que difere a cidade de Tulsa de outras cidades inteligentes ao redor do mundo é a forma profunda e abrangente como os dados estão inseridos na base da tomada de decisões político-administrativas. Ao contrário de outras cidades, em que os dados são utilizados de forma isolada na busca por determinadas soluções, em Tulsa eles parecem guiar os próximos passos da prefeitura, como prometeu Bynum em sua campanha. Se a cidade ainda não tem 100% de suas decisões baseadas em dados, essa parece ser uma questão de tempo que a parceria produtiva entre a administração pública e a comunidade local está pronta para resolver.

BigData Corp

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