Embora o Big Data e as tecnologias atreladas a ele estejam sendo cada vez mais utilizados para alavancar o desempenho de empresas, instituições e governos, ainda existe quem prefira ignorar suas vantagens. Um caso que exemplifica exata e tragicamente o que estamos falando ganhou as manchetes em 2016, quando a contaminação da água com níveis alarmantes de chumbo foi reconhecida pelo governo da cidade de Flint, nos EUA, depois de meses de críticas por partes dos moradores, que vinham reparando alterações na cor e sabor do elemento, além de um aumento vertiginoso da incidência de doenças e reações alérgicas.

Se você quer entender mais sobre o caso e saber como as tendências apontadas pela análise de Big Data foram ignoradas, acompanhe o post de hoje!

Como tudo começou

Desde 2011, Flint está sob intervenção emergencial imposta pelo governo do estado de Michigan, graças à um déficit orçamentário de 15 milhões de dólares. No primeiro semestre de 2014, com o objetivo de equilibrar as contas, o gestor municipal na ocasião decidiu que seria possível economizar, aproximadamente, 20 milhões de dólares em oito anos no abastecimento de água, bombeando água diretamente dos Grandes Lagos.

Uma vez que a construção dos novos dutos que abasteceriam a cidade estava programada para durar mais de dois anos, a solução proposta foi usar a água do rio Flint como fonte de abastecimento durante esse intervalo de tempo. Contudo, em pouco tempo a população notou que havia alguma coisa errada com a qualidade da água que chegava às suas casas.

Diagnóstico e solução

Alguns meses e muitas queixas depois, após examinar 252 amostras enviadas por moradores, uma pesquisa realizada pela Universidade Politécnica da Virgínia constatou a presença de chumbo na água. A conclusão foi que as águas do rio Flint continham elementos de poluição que conferiam a água um caráter corrosivo. Dessa forma, ao entrar em contato com os canos de chumbo das residências mais antigas da cidade, o líquido atuava na liberação da substância tóxica presente no material do encanamento e levava água contaminada às propriedades.

O governo sabia que milhares de casas ainda possuíam canos de chumbo e, para remediar o problema, os mesmos deveriam ser substituídos pelos modelos de cobre, mais seguros. A solução pode parecer simples, mas o desafio era descobrir quais casas contavam com encanamento de chumbo, pois os registros da cidade são incompletos e imprecisos, logo desenterrar todos os tubos sairia caro e levaria muito tempo.

Para colaborar, cientistas de computação voluntários projetaram um modelo de aprendizagem de máquina com a intenção de prever quais casas provavelmente teriam canos de chumbo. Analisando dados públicos, a inteligência artificial deveria ajudar a identificar onde os tubos provavelmente precisariam ser substituídos, para que as escavações fossem realizadas apenas nos locais corretos. Até 2017, o plano estava funcionando a todo vapor, de forma que das quase nove mil residências inspecionadas, cerca de 70% continham de fato encanamento de chumbo.

Os riscos dos dados ignorados

Em 2018, o prefeito de Flint assinou um contrato com uma grande empresa de engenharia para acelerar o programa de substituição dos canos de chumbo. No entanto, cada vez menos inspeções encontravam modelos feitos do material de risco. Ao fim de 2018, cerca de 10.500 propriedades foram inspecionadas e em apenas 15% dessas foram encontrados tubos de chumbo a serem substituídos, uma amostragem de sucesso muito inferior à marca de 70% atingida em 2017.

Isso aconteceu porque a nova empresa de engenharia ignorou as previsões do modelo de inteligência artificial que guiaram a operação anterior. Além disso, cedendo à pressão de alguns moradores, o prefeito exigiu que a empresa vasculhasse todas as casas de blocos selecionados em algumas partes da cidade, em vez de vistoriar apenas as residências com mais probabilidade de ter canos de chumbo, levando em consideração a idade da construção, tipo de propriedade e outras características que poderiam estar correlacionadas com os canos.

O fracasso do novo projeto levou o Estado, responsável pelo financiamento da investigação, a suspender os pagamentos à Flint por causa de como o programa foi administrado. A justificativa apresentada foi que a cidade decidiu deixar de priorizar escavações em casas onde se esperavam encontrar encanamento de chumbo. Agora, o governo de Flint, o Estado e a empresa de engenharia estão negociando para voltar ao modelo de inteligência artificial empregado em 2017.

 

Apesar das boas intenções da prefeitura e da nova empresa contratada, a verdade é que continuar com o método iniciado em 2017, levando em consideração as previsões realizadas pelo programa de IA, poderia ter identificado e substituído os canos de chumbo em quase todas as residências da cidade ainda em 2018. Em vez disso, milhares de pessoas que vivem em casas com mais chances de ter encanamento de risco terão que aguardar novas soluções do governo e, por enquanto, seguem sujeitas à contaminação da água.

BigData Corp

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