Em 1957, Herbert Simon, um dos pioneiros da disciplina Inteligência Artificial (IA), fez algumas previsões àquela época bastante curiosas. Ele disse que os programas de computação venceriam um campeão mundial de xadrez; que comporiam uma música original “esteticamente agradável”; e que provariam novos teoremas matemáticos significativos. Os três prognósticos se concretizaram muitos anos depois, entre o final de 1996 e meados de 1997. Mas mesmo com tamanha capacidade de visão do futuro, é bem provável que nem Simon – vencedor do prêmio Nobel em economia (1978) –poderia imaginar a quantidade de usos inusitados da tecnologia que viriam depois disso, com a virada do novo século.

Uma aplicação surpreendente da tecnologia foi anunciada em Israel, este ano de 2019. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Tel-Aviv desenvolveu uma rede neural que “lê” uma receita de comida e, a partir dessas informações, gera a imagem do prato finalizado. Basta que o texto apresente os ingredientes e o modo de preparo. O programa vai fazendo a interpretação da escrita e convertendo o conteúdo em vetores numéricos. Depois, esses vetores são analisados e comparados com descrições de milhares de fotos reais. É assim que a máquina “aprende” sobre as aparências dos alimentos e “cria” a imagem do prato que não existe. Já, nos Estados Unidos, uma solução de IA desenvolvida em 2017 por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), faz o contrário: diante de uma imagem de um prato de comida, diz qual foi a receita utilizada.

Cyber repórter

Essa evolução chegou às redações de grandes jornais – não apenas no mundo, mas também aqui no Brasil. Hoje já circulam em veículos como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, BBC News, conteúdos produzidos integralmente por robôs com inteligência artificial. São pequenos textos como resultados de jogos de futebol e notas sobre o mercado financeiro. Soluções de IA simplesmente captam os dados divulgados pelas fontes primárias – Bolsas de Valores, portais que acompanham jogos em tempo real –, organizam as informações e constroem frases de acordo com parâmetros de linguagem humana. Quanto mais as máquinas produzem, mais “naturais” os textos se tornam.

O site holandês The Next Web usa inteligência artificial, por exemplo, para produzir matérias sobre Bitcoin. Um robô (bot), que até ganhou o nome de Satoshi Nakaboto, captura informações na web e compõe textos sem qualquer interferência humana. O resultado é tão bom que, um dia, uma das matérias mais lidas no portal foi “escrita” por Nakaboto. Na agência de notícias norte-americana Bloomberg, o bot se chama Cyborg. Um verdadeiro cyber repórter, o sistema decifra os relatórios trimestrais de lucros de uma organização e produz textos com esses dados. Mas não para por aí… também escreve artigos sobre beisebol para a agência Associated Press e sobre terremotos para o Los Angeles Times.

Sem preconceito

No mundo das artes, a IA está rompendo preconceitos. Em 2018, uma das casas de leilões mais renomadas do mundo, a Christie’s, vendeu em Nova York um quadro feito por algoritmos. O comprador pagou a bagatela de 432.500 dólares – valor entre 40 e 60 vezes acima da estimativa inicial, que era entre 7 mil  e 10 mil dólares. Os jovens franceses Hugo Caselles-Dupré, Pierre Fautrel e Gauthier Vernier, do coletivo Obvious, não são da área de arte. Mas entraram para a história como autores da primeira obra confeccionada a partir de IA e comprada em um leilão. O quadro Portrait d’Édouard Belamy levou quatro a seis meses de programação. “Mas, quando obtivemos um código operacional, o quadro foi pintado em somente 24 horas”, disse à época o programador Vernier.

Nem mesmo uma das ciências mais antigas, com origem no IV milênio a.C. escapa dos bots. Soluções de Inteligência Artificial podem fazer uma leitura diária hiper personalizada de cada signo. A startup norte-americana Co-Star criou um horóscopo “intimista”, que simula um amigo dando conselhos a outro. O aplicativo usa dados da Nasa para identificar o posicionamento das estrelas e planetas no momento em que o usuário nasceu. Com isso, traça um mapa astral com precisão. Lançada em 2017, a plataforma contabiliza mais de 5 milhões de downloads e, no início deste ano, recebeu um aporte de capital de 5 milhões de dólares de investidores do Vale do Silício.

BigData Corp

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